Economista considera Plano Safra consistente

O Portal Agrolink conversou com o Professor Doutor em Economia Internacional, Argemiro Luis Brum, sobre o Plano Safra 2021/2022 divulgado na última semana. Apesar dos cortes orçamentários e das dificuldades relativas ao déficit fiscal do Estado brasileiro, o Plano Safra em questão até veio bastante consistente. Dito isso, algumas considerações específicas se impõem, sem esgotar o assunto evidentemente:

1) o volume total do financiamento chegou a R$ 251,1 bilhões, com um aumento de 6,3%. O mesmo ficou abaixo da inflação oficial no período que chegou a 8,06% (IPCA). Ou seja, o volume absoluto destinado não acompanhou a inflação oficial do período;

2) mesmo que esteja previsto a liberação dos recursos a partir de 1º de julho, o atraso em seu anúncio pode provocar retardamento na liberação dos recursos para muitos produtores e localidades, o que não é novidade mas sempre causa problemas de caixa para parte do setor. Especialmente em um ano em que o custo de produção subirá bastante;

3) os juros vieram mais elevados, acompanhando a tendência da Selic, porém, ainda com grandes subsídios se comparados aos juros normais da economia em geral. Todavia, a alta dos juros se soma ao custo geral de produção mais elevado, reduzindo o rendimento líquido final na comparação direta com o ano anterior, tudo o restante permanecendo constante;

4) o volume absoluto de recursos a juros controlados ficou idêntico ao do ano anterior. Ora, como houve aumento no volume absoluto total, proporcionalmente os recursos a juros controlados diminuíram em volume, ficando agora a 65% do total anunciado. Isso significa que outros 35% ficam a juros de mercado;

5) assim, após dois anos seguidos de juros em baixa, o atual Plano Safra volta a aumentar os juros para o setor agrícola nacional, dentro da lógica de dificuldades que a economia nacional enfrenta;

6) a agricultura familiar tem um aumento interessante no volume de crédito a ela destinada, com incremento de 19% sobre o Plano anterior, mesmo que os juros venham um pouco mais elevados. Isso não significa que o volume de recursos a ela destinado seja suficiente, dado que a grande maioria dos produtores nacionais, em todas as atividades, ainda é formada de agricultores familiares;

7) Já os médios produtores, que também formam um contingente significativo de pessoas, recebe menos em volume e juros um pouco maiores. O aumento no volume de recursos a eles destinados é de apenas 2,4% sobre o ano anterior, sendo o segmento menos favorecido;

8) Quanto aos grandes produtores, os mesmos viram o volume de recursos aumentar 4,6% em relação ao ano anterior, e igualmente assistem a um aumento nos juros cobrados. Tanto os médios quanto os grandes produtores tiveram seu volume de recursos aumentado bem abaixo da inflação oficial do período, embora os últimos fiquem com a maior parte dos recursos absolutos;

9) enfim, o seguro rural, um dos mecanismos mais importantes dos últimos tempos para a agricultura nacional, volta ao valor de dois anos antes (um bilhão de reais), recuando 23,1% sobre o ano anterior. É uma pena, dada as dificuldades climáticas que os produtores vêm enfrentando nos últimos tempos. De fato, o seguro rural ainda é um pilar frágil dentro do conjunto do Plano Safra nacional;

10) dito isso, este Plano Safra chega em um contexto diferente do vivido no ano anterior. Tudo indica que o ambiente de mercado será de custos mais elevados e preços médios menores em reais, fato que reduzirá a rentabilidade final dos produtores em geral, mantida as condições normais de safra e produtividade.

Fonte: Agrolink

Data: 28/06/2021